VI. Kamma: A Lei da Causalidade Moral

Estamos diante um mundo completamente desequilibrado. Percebemos as desigualdades, os múltiplos destinos dos homens e os inúmeros tipos de seres que existem no universo. Vemos que uns nascem em abundância, dotados de boas qualidades mentais, morais e físicas, e outros em extrema pobreza e miséria. Aqui está um homem virtuoso e santo, mas, ao contrário de suas expectativas, o infortúnio está sempre pronto para recebê-lo. O mundo perverso contraria as suas ambições e desejos. Ele é pobre e miserável, apesar de seus tratos honestos e piedosos. Há um outro vicioso e tolo, mas considerado um amado da sorte. Ele é recompensado com todas as formas de favores, apesar de suas deficiências e mau estilo de vida.

Poderá questionar-se, porque razão um deveria ser inferior e outro superior? Porque razão se deveria ser arrancado das mãos de uma mãe amorosa quando apenas a viu nuns poucos Verões, e outro morre na flor da vida, ou na idade madura de 80 ou 100 anos? Porque razão um deveria estar doente e outro é forte e saudável? Porque deveria um ser bonito e elegante, e outro feio e horroroso, repugnante para todos? Porque deveria um ser criado no colo do luxo, e outro na pobreza absoluta, mergulhado na miséria? Porque razão deveria um nascer milionário e outro pobre? Porque deveria um nascer com características santas, e outro com tendências criminosas? Porque deveriam alguns ser linguistas, artistas, matemáticos ou músicos desde o berço? Porque deveriam alguns ser congenitamente cegos, surdos e deformados? Porque razão deveriam alguns ser abençoados e outros amaldiçoados desde o nascimento?

Estes são alguns problemas que inquietam as mentes de todos os homens que pensam. Como é que vamos explicar todos estes desequilíbrios do mundo, essa desigualdade da humanidade?

É devido à obra do acaso cego ou acidental?

Nada neste mundo acontece por acaso cego ou acidente. Dizer que algo acontece por acaso não é mais verdadeiro que dizer que este livro chegou aqui por si mesmo. Estritamente falando, ao homem não acontece nada que não mereça por algum motivo ou outro.

Poderia ser o decreto de um Criador irresponsável?

Huxley escreveu:

Se assumirmos que alguém estabeleceu deliberadamente o progresso deste maravilhoso universo, para mim, é perfeitamente claro que deixou de ser completamente benevolente e justo, sim, para usar um sentido inteligível das palavras, é malévolo e injusto.”

De acordo com Einstein:

Se este ser (Deus) é omnipotente, então cada acontecimento, incluindo todas as ações humanas, todos os pensamentos humanos, e cada sentimento e aspiração, também são causa sua; como é possível pensar em homens responsáveis pelos seus atos e pensamentos ante o tal ser Todo-Poderoso?”

Repartindo castigos e recompensas, em certa medida, ele estaria ajuizando a si mesmo. Como pode ser isto compatível com a bondade e retitude que se lhe atribui?”

Declaração de Spencer Lewis:

De acordo com os princípios teológico, o homem é criado de forma arbitrária e sem desejo, e no momento da sua criação é abençoado ou condenado eternamente. Portanto, o homem é bom ou ruim, feliz ou infeliz, nobre ou depravado, a partir do primeiro passo de sua criação física até ao momento do seu último suspiro, independentemente de seus desejos individuais, esperanças, ambições, lutas ou devotas orações. Este é o fatalismo teológico.”

Como Charles Bradlaugh diz:

A existência do mal é um obstáculo terrível para o teísta. A dor, a miséria, crime, pobreza, entram em confronto com o que defende a bondade eterna e desafiam com força irrefutável a sua declaração de divindade como todo-bom, omnisciente e todo-poderoso.”

Nas palavras de Schopenhauer:

Quem considera a si mesmo como tendo se tornado a partir do nada, também deve pensar que ele novamente se tornará nada; por uma eternidade se passou antes que ele era, e em seguida, uma segunda eternidade já começou, através do qual ele nunca deixará de ser, é um pensamento monstruoso.”

Se o nascimento é o começo absoluto, então a morte deve ser o seu fim absoluto; e no pressuposto de que o homem é feito a partir do nada leva necessariamente ao pressuposto que a morte é o fim absoluto.”

Comentando sobre o sofrimento humano e Deus, o Prof. J. B. S. Haldane escreve:

Ou o sofrimento é necessário para aperfeiçoar o caráter humano, ou Deus não é Todo-Poderoso. A primeira teoria fica descartada pelo facto de que algumas pessoas sofreram muito pouco mas têm a sorte em sua ascendência e educação, têm características muito refinadas. A objeção à segunda teoria é que, no que diz respeito à consideração do universo como um todo, não existe qualquer lacuna intelectual que só pode ser preenchida com o postulado de uma divindade. E um criador poderia, presumivelmente, criar qualquer coisa que ele ou ela quisesse.”

Lord Russel afirma:

O mundo, foi-nos contado, foi criado por um Deus que é muito bom e omnipotente. Antes de criar o mundo, previu toda a dor e miséria que poderia conter. Ele é, portanto, responsável por tudo isso. É inútil argumentar que a dor no mundo é devido ao pecado. Se Deus sabia de antemão os pecados de que o homem seria culpado, ele foi claramente responsável por todas as consequências desses pecados quando decidiu criar o homem.”

Em “Desespero”, um poema escrito já na sua velhice, Lord Tennyson ataca audaciosamente Deus, que, como está escrito em Isaías, disse: “Eu trago a paz e crio o mal” (Isaías, xiv, 7).1

O Quê! Deveria apelar para esse amor infinito que nos serviu tão bem? Infinita crueldade, quem idealizou o inferno eterno. Nos criou, nos preconcebeu condenando de antemão, e faz o que quer com o que lhe pertence. Melhor que a nossa mãe sangre até morrer e que nunca nos tenha ouvido gemer.”

Certamente, “a doutrina de que todos os homens são pecadores e têm o pecado original de Adão é um desafio para a justiça, a misericórdia, o amor e a justiça omnipotente”.

Alguns escritores da antiguidade declaram com autoridade que Deus criou o homem à sua própria imagem. Alguns pensadores modernos afirmam, pelo contrário, que o homem criou Deus à sua própria imagem. Com o desenvolvimento da civilização, o conceito humano de Deus também tornou-se cada vez mais refinado.

No entanto, é impossível conceber um tal ser, seja dentro ou fora do universo.

Poderia esta variedade de seres humano dever-se a fatores hereditários ou ao meio ambiente? Deve-se admitir que todos esses fenómenos físico-químicos, revelados por cientistas, são uma parte instrumental, mas não podem ser responsáveis sozinhos pelas distinções subtis e as vastas diferenças entre os indivíduos. Porque os gémeos idênticos, fisicamente semelhantes, que herdaram os mesmos genes e tiveram a mesma educação, muitas vezes são totalmente diferentes em temperamento, moralidade e intelectualidade?

A hereditariedade não pode por si só explicar essas enormes diferenças. Estritamente falando, a hereditariedade é uma explicação mais plausível para as semelhanças que para a maioria das diferenças. O infinitesimalmente menor germe físico-químico, que é cerca da 30 milionésima parte de uma polegada de diâmetro, herdada dos pais, explica apenas uma parte do homem, a sua base física. Quanto às diferenças mentais, intelectuais e morais mais subtis, precisamos de mais luz. A teoria da hereditariedade não pode fornecer uma explicação satisfatória para o nascimento de um criminoso depois de uma longa lista de antepassados ilustres, o nascimento de um santo ou um homem nobre em uma família de má reputação, o surgimento de crianças-prodígio, génios e grandes mestres religiosos.

Segundo o Budismo esta variação deve-se não só à hereditariedade, ao meio ambiente, “natureza e educação”, mas também ao nosso próprio Kamma, ou em outras palavras, ao resultado herdado de nossas próprias ações passadas e nossos atos presentes. Nós mesmos somos responsáveis por nossas ações, felicidade e miséria. Nós construímos nossos próprios infernos. Criamos nossos próprios céus. Somos os arquitetos do próprio destino. Em definitivo, nós mesmos somos nosso próprio Kamma.

Numa ocasião,2 um certo jovem chamado Subha, aproximou-se de Buddha e perguntou-lhe qual era o motivo de entre os seres humanos existirem estados elevados e inferiores.

Pois”, continuou, “encontramos entre os seres humanos aqueles de vida breve e de longa vida, os saudáveis e os doentes, os bem parecidos e os feios, os poderosos e os que não têm poder algum, os pobres e os ricos, os de elevado nascimento e os de baixo nascimento, os ignorantes e os inteligentes”.

Buddha replicou sucintamente:

Cada criatura vivente tem o Kamma como propriedade, como herança, como causa, como origem, como refúgio. O Kamma é o que diferencia os seres viventes de estados baixos e elevados.”

Em seguida, explicou a razão para tais diferenças segundo Lei da Causalidade Moral.

Assim, de um ponto de vista Budista, nossas presentes diferenças mentais, intelectuais, morais e temperamentos devem-se principalmente, às nossas próprias ações e tendências, tanto passadas como presentes.

O Kamma, literalmente, significa ação; mas, num sentido último, significa volição meritória e demeritória (Kusala Akusala Cetana). Kamma constitui tanto o bem como o mal. Bem gera o bem. Mal produz o mal. Semelhante atrai semelhante. Esta é a Lei de Kamma.

Como alguns ocidentais preferem dizer, Kamma é “ação-influência”.

Colhemos o que semeamos. O que semeamos nós colhemos em algum lugar ou em algum momento. Em certo sentido, somos o resultado do que fomos; seremos o resultado do que somos. Em outro sentido, não somos totalmente o resultado do que fomos; Não somos absolutamente o resultado do que somos. Por exemplo, um criminoso hoje pode ser um santo amanhã.

O Budismo atribui esta variação ao Kamma, mas não afirma que tudo se deve ao Kamma.

Se tudo se devesse ao Kamma, um homem [mau] seria sempre mau, pois o seu Kamma é de homem mau. Outro homem [bom] não teria que visitar um médico para ser curado de uma doença, pois se o seu Kamma fosse assim, esse homem se curaria.

Segundo o Budismo, existem cinco ordens ou processos (Niyāmas) que operam nas esferas do físico e do mental:

  1. Kamma Niyāma: Ordem de ato e consequência – por exemplo, atos desejáveis ou indesejáveis produzem os correspondentes bons ou maus resultados.
  2. Utu Niyāma: Ordem física (inorgânico) – por exemplo, fenómenos sazonais dos ventos e das chuvas.
  3. Bīja Niyāma: Ordem dos germes ou sementes (ordem orgânico-física) – por exemplo, o arroz produzido por sementes de arroz, o sabor doce da cana-de-açúcar ou mel, etc. A teoria científica das células e genes e a similaridade entre gémeos são exemplos desta ordem.
  4. Citta Niyāma: Ordem da mente ou lei psíquica – por exemplo, os processos de consciência (Citta Vīthi), poder da mente, etc.
  5. Dhamma Niyāma: Ordem da norma – por exemplo, os fenómenos naturais que ocorrem quando chega um Bodhisatta em seu último nascimento, gravidade, etc.

Todos os fenómenos mentais ou físicos poderão explicar-se por estas cinco ordens ou processos que abarcam tudo e que são leis em si mesmas.

O Kamma é, portanto, só uma das cinco ordens que prevalecem no universo. Trata-se de uma lei em si mesma, mas não se deve inferir que deve existir um legislador. As leis atuais da natureza, como a lei da gravidade, não necessitam de um legislador. Operam em seu próprio campo sem a intervenção de um agente governante independente.

Ninguém, por exemplo, decretou que o fogo deve queimar. Ninguém ordenou que a água deve procurar o seu próprio nível. Nenhum cientista ordenou que a água deveria ser composta de H2O e que o frio deve ser uma das suas propriedades. Estas são as suas características intrínsecas. O Kamma não é nem destino nem predestinação imposta a nós por algum poder misterioso desconhecido ao qual nos devemos impotentemente submeter. São os próprios atos reagindo em nós mesmos, e portanto tem-se a possibilidade de desviar o curso do Kamma em certa medida. Até que ponto se pode desviar depende da própria pessoa.

Além disso, deve-se dizer que uma fraseologia como recompensa e punição, não deve ser autorizada a entrar em discussão a respeito do problema do Kamma, uma vez que o Budismo não reconhece nenhum Ser Todo-Poderoso que governa seus súbditos e lhes recompensa e castiga em consequência. Budistas, pelo contrario, acreditam que a dor e a felicidade que uma pessoa experimenta são o resultado natural das próprias boas e más ações. Importa referir que o Kamma tem o principio de continuidade e o principio retributivo.

Inerente ao Kamma é a potencialidade de produzir o seu devido efeito. A causa produz o efeito; o efeito explica a causa. A semente produz o fruto; o fruto explica a semente e ambos estão inter-relacionados. Da mesma forma, Kamma e seus efeitos estão inter-relacionados; “O efeito já floresce na causa.”

Um Budista que está plenamente convencido da doutrina do Kamma não reza a outro para ser salvo, mas certamente confia em si mesmo para a sua purificação, porque esta doutrina ensina a responsabilidade individual.

É esta doutrina do Kamma que proporciona consolação, esperança, autoconfiança e valor moral. É esta crença no kamma “que valida seu esforço, acende seu entusiasmo”, faz-lhe sempre amigável, tolerante e amável. É também esta firme crença no kamma que o leva a abster-se do mal, fazer o bem e ser bom sem estar ameaçado por qualquer punição ou tentado por qualquer recompensa.

É esta doutrina do Kamma que pode explicar o problema do sofrimento, o mistério do chamado destino ou predestinação de outras religiões e, sobretudo, todas as desigualdades da humanidade.

O Kamma e renascimento são aceites como axiomáticos.


1N. do T.: A referência correta é: Isaías, XLV, 7.

2Cūlakamma Vibhanga Sutta – Majjhima Nikāya, Nº 135

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3 thoughts on “VI. Kamma: A Lei da Causalidade Moral

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