V. Algumas Características Relevantes do Budismo

Os fundamentos do Budismo são as Quatro Nobres Verdades, a saber: O sofrimento (a raison d’être1 do Budismo); sua causa (i.e., o Desejo);2 o seu fim (i.e., Nibbana, o Summum Bonum3 do Budismo); e o Caminho do Meio [Nobre Caminho Óctuplo].

Qual é a Nobre Verdade do Sofrimento?

Nascer é sofrimento, a velhice é sofrimento, a doença é sofrimento, a morte é sofrimento, estar unido ao desagradável é sofrimento, estar separado do agradável é sofrimento, não receber o que se deseja é sofrimento, em resumo, os Cinco Agregados influenciados pelo apego são sofrimento.”

Qual é a Nobre Verdade da Causa do Sofrimento?

É o desejo que nos leva de nascimento em renascimento, acompanhado pela avidez e paixão, que nos faz deliciar ora aqui ora ali; é o desejo de prazeres sensuais (Kāmataṇhā), da existência e sua continuidade (Bhabataṇhā),4 é o desejo da aniquilação ou cessação do ser (Vibhavatanha).”5

Qual é a Nobre Verdade da Cessação do Sofrimento?

É a ausência de qualquer vestígio desse desejo, é a cessação total, o abandono deste, a rutura definitiva, escape, libertação do desejo.”

Qual é a Nobre Verdade do Caminho que leva à Cessação do Sofrimento?

É o Nobre Caminho Óctuplo que consiste na Compreensão Correta, Pensamento Correto, Fala Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correto, Esforço Correto, Atenção Plena Correta, e Concentração Correta.”

Tenha surgido ou não um Buddha, estas quatro Verdades existem no universo. Os Buddhas apenas revelam estas Verdades que se escondiam no abismo obscuro do tempo.

Interpretado cientificamente, o Dhamma pode chamar-se a lei da causa-efeito.6 Estes dois abarcam o corpo completo dos Ensinamentos de Buddha.

As três primeiras representam a filosofia do Budismo; a quarta representa a ética do Budismo, baseada nessa filosofia. Estas quatro verdades são dependentes deste corpo em si mesmas. Buddha afirma: “Neste corpo de uma braça de comprimento, junto com as perceções e pensamentos, eu proclamo o mundo, a origem do mundo, o fim do mundo e o caminho que conduz ao fim do mundo.” Aqui, o termo mundo é aplicado a sofrimento.

O Budismo repousa sobre o eixo da dor. Mas aqui não se deve inferir que o Budismo é pessimista. Nem é totalmente pessimista nem totalmente otimista, mas, ao contrário, ensina que a verdade repousa no meio do caminho entre os dois. Poderia encontrar-se justificação em chamar Buddha pessimista se ele tivesse apenas enunciado a verdade do sofrimento sem sugerir um meio para acabar com ele. O Buddha percebeu a universalidade da dor e receitou uma prescrição para esse mal universal da humanidade. A maior felicidade que se possa imaginar, de acordo com o Buddha, é Nibbana, que é a total extinção do sofrimento.

O autor do artigo sobre pessimismo na Enciclopédia Britânica escreve: “O Pessimismo denota uma atitude de desesperança face à vida, uma vaga opinião geral de que a dor e o mal predominam os assuntos humanos. A doutrina original de Buddha é tão otimista como qualquer otimismo no ocidente. Chamar de pessimismo é simplesmente aplicar o principio característico do ocidente pela qual a felicidade é impossível sem personalidade. O verdadeiro Budista espera com entusiasmo ser absorvido pela felicidade eterna.”

Normalmente, o desfruto dos prazeres sensuais é a maior e única felicidade do homem comum. Não há dúvida sobre o tipo de felicidade momentânea envolvendo expectativa, satisfação e lembrar de tais prazeres materiais efémeros, mas são ilusórios e temporários. De acordo com Buddha, o não-apego é uma felicidade ainda maior.

Buddha não espera que seus seguidores mantenham uma reflexão constante sobre o sofrimento que os conduz a uma miserável vida infeliz. Os exorta a estarem sempre felizes e alegres porque o entusiasmo (Pīti) é um dos fatores da Iluminação.

A felicidade real encontra-se no interior e não se define em termos de riqueza, filhos, honra ou fama. Se tais posses são mal utilizadas, são obtidas injustamente ou pela força, apropriadas indevidamente ou até mesmo vistas com apego, serão uma fonte de infelicidade e dor dos seus possuidores.

Em vez de tentar racionalizar o sofrimento, o Budismo o dá como certo e procura a causa para erradicá-lo. O sofrimento existe enquanto há desejo. Ele só pode ser cessado andando pelo Nobre Caminho Óctuplo e alcançando o êxtase supremo do Nibbana.

Estas Quatro Nobres Verdades podem ser verificadas mediante a experiência. Portanto, o Dhamma não se baseia no medo do desconhecido, mas se fundamenta nos factos que podem ser testados por nós mesmos e verificados pela experiência. Budismo, é portanto, racional e intensamente prático.

Um sistema tão racional e prático não pode conter mistérios ou doutrinas esotéricas. A fé cega, portanto, é estrangeira ao Budismo. Onde não há fé cega não pode haver nenhuma coerção, perseguição ou fanatismo. Para o único crédito do Budismo deve-se dizer que ao longo da sua marcha pacífica de 2500 anos, não se derramou uma única gota de sangue em nome de Buddha, nenhum monarca poderoso empunhava a sua espada para propagar o Dhamma, e nenhuma conversão era realizada pela força ou métodos repulsivos. No entanto, o Buddha foi o primeiro e maior missionário que viveu na Terra.

Aldous Huxley escreveu: “Único entre todas as grandes religiões do mundo, o Budismo fez o seu caminho sem perseguição, censura ou inquisição.”

Lord Russell assinala: “Das grandes religiões da História, prefiro o Budismo, especialmente nas suas formas mais antigas; porque tiveram o menor elemento de persuasão.”

Em nome do Budismo nenhum altar foi manchado de vermelho com o sangue de um Hipátia,7 nenhum Bruno8 foi queimado vivo.

O Budismo apela mais ao intelecto que à emoção. Preocupa-se mais pelo caráter dos devotos que por seu tamanho numérico.

Em uma ocasião, Upali, um seguidor de Nigantha Nataputta, aproximou-se de Buddha e ficou tão satisfeito com a exposição de Buddha sobre o Dhamma que instantaneamente expressou o seu desejo de se converter em seguidor de Buddha.

Buddha lhe preveniu dizendo:

Em verdade, oh chefe de família, faz uma investigação completa. É bom para um ilustre como você fazer (primeiro) uma investigação meticulosa.”

Upali, muito feliz com esta observação inesperada de Buddha, disse:

Senhor, se eu tivesse sido um seguidor de outra religião, seus seguidores teriam me levado pelas ruas em uma procissão proclamando que tal e tal milionário havia renunciado à sua antiga fé e abraçado a sua. Mas Senhor, Sua Reverência aconselha a investigar mais. Estou ainda mais satisfeito com essa observação sua. Pela segunda vez, Senhor, eu busco refúgio no Buddha, Dhamma e Sangha.”

O Budismo está impregnado com este espírito de investigação livre e tolerância completa. É o ensinamento da mente aberta e coração compreensivo que, iluminando e dando calor a todo o universo com o seu duplo raio de sabedoria e compaixão, lança seu brilho genial em todos os seres que lutam no oceano do nascimento e morte.

O Buddha foi tão tolerante que ele nem sequer exerceu seu poder para dar mandamentos aos seus seguidores leigos. Em vez de usar o autoritarismo, ele disse: “Cabe a você fazer isso – Cabe a você não fazer isso.” Ele exorta, mas não manda.

Esta tolerância do Buddha se estende a homens, mulheres e todos os seres vivos.

Foi o Buddha o primeiro que tentou abolir a escravidão e protestou veemente contra o degradante sistema de castas que estava firmemente enraizado em solo indiano. Segundo as palavras do Buddha, não é por mero nascimento que se é pária ou nobre, mas pelas próprias ações. A casta ou cor não impede alguém de se tornar um Budista ou de entrar na Ordem. Pescadores, varredores de ruas, cortesãs, juntamente com os guerreiros e os brâmanes, foram livremente admitidos na Ordem, gozavam de privilégios iguais e também lhes foram atribuídas posições relevantes. Upali o barbeiro, por exemplo, era o preferido sobre todos os outros para ser responsável pelas questões relativas à disciplina Vinaya. O tímido Sunita, varredor de ruas, que atingiu o status de um monge, foi admitido pelo próprio Buddha na Ordem. Angulimala, o ladrão e criminoso, tornou-se um santo compassivo. O temível Alavaka buscou refúgio no Buddha e tornou-se um santo. A cortesã Ambapali entrou para a Ordem e alcançou o status de monja. Tais exemplos poderiam facilmente multiplicarem-se a partir do Tipitaka para mostrar que as portas do Budismo estavam abertas a todos, sem distinção de casta, cor ou posição.

Foi também o Buddha que elevou o status de mulheres oprimidas e não só as levou à compreensão do seu peso na sociedade, mas também fundou a primeira ordem religiosa celibatária com normas e regras para mulheres.

O Buddha não humilhou as mulheres, mas apenas as considerou delicadas por natureza. Ele viu o bem inato tanto de homens como de mulheres e atribuiu-lhes o seu lugar adequado em seus ensinamentos. O sexo não é um obstáculo para alcançar a santidade.

Às vezes o termo Pali usado para descrever mulheres é “Mātugāma”, que significa povo-mãe ou sociedade de mães. Como mãe, a mulher ocupa um lugar de honra no Budismo. Inclusive a esposa é considerada como a “melhor amiga” (Paramā Sakhā) do seu marido.

As criticas apresadas são apenas afirmações ex parte quando tacham o Budismo como um inimigo das mulheres. Ainda que no principio Buddha se tenha recusado a admitir mulheres na Ordem por motivos razoáveis, mais tarde cedeu às súplicas de sua mãe adotiva Pajapati Gotami, e fundou a Ordem Bhikkhuni. Igual aos Arahats Sariputta e Moggallāna que foram nomeados principais discípulos na Ordem dos monges, assim, Buddha apontou as Arahats Khema e Uppalavanna como as duas principais discípulas femininas. Muitas outras mulheres discípulas também foram nomeadas pelo próprio Buddha como suas seguidoras ilustres e piedosos.

Numa ocasião, Buddha disse ao rei Kosala, que estava descontente ao saber que o filho que esperava era uma menina:

A menina, ó senhor dos homens, pode vir a ser ainda melhor do que um descendente masculino.”

Muitas mulheres, que de outra forma teriam caído no esquecimento, se fizeram por distinguir de várias maneiras, e obtiveram a sua emancipação seguindo o Dhamma e ingressando na Ordem. Nessa nova ordem, que mais tarde provou ser uma grande bênção para muitas mulheres – rainhas, princesas, filhas de famílias nobres, viúvas, mães desoladas por um filho morto, mulheres indigentes, cortesãs lastimosas – todas, apesar de sua casta ou posição, encontraram uma plataforma comum, desfrutaram do perfeito consolo e paz, e respiraram daquela atmosfera livre que é negada às pessoas enclausuradas em fazendas e mansões palacianas.

Foi também o Buddha que proibiu o sacrifício de pobres animais e advertiu seus seguidores a estenderem a bondade amorosa (Mettā) a todos os seres vivos – mesmo às menores criaturas que rastejam a nossos pés. Ninguém tem o poder ou o direito de destruir a vida de outro, já que a vida é preciosa para todos.

Um autêntico Budista exerceria esse amor por todos os seres vivos e identificaria-se com todos, sem fazer qualquer distinção seja qual for a casta, cor ou sexo.

É este Mettā Budista que tenta quebrar todas as barreiras que nos separam uns dos outros. Não há nenhuma razão para manter distancia de outros simplesmente porque se pertence a outra crença ou se tenha outra nacionalidade. Nesse nobre Édito de Tolerância que está baseado nos Suttas Culla-Vyūha e Mahā-Vyūha, o Imperador Asoka diz: “O contacto [entre as religiões] é bom. Deveria se ouvir e respeitar as doutrinas professadas por outros.”

O Budismo não se limita a qualquer país ou qualquer nação particular. É universal. Não é nacionalismo, que, em outras palavras, é uma outra forma de sistema de castas fundado sobre uma base mais ampla. Budismo, se é permitido dizê-lo, é supranacionalismo.

Para um Budista não há longe ou perto, nem inimigo ou forasteiro, nem renegado ou intocável, porque o amor universal a que se chega pela compreensão estabeleceu a irmandade de todos os seres vivos. Um verdadeiro Budista é um cidadão do mundo. Considera o mundo inteiro como sua pátria e todos como seus irmãos e irmãs.

O Budismo é, portanto, único, principalmente por sua tolerância, não-agressividade, racionalidade, praticidade, eficácia e universalidade. É a mais nobre de todas as influências unificadores e a única alavanca que pode elevar o mundo.

Estas são algumas das características marcantes do Budismo, e entre algumas das doutrinas fundamentais pode mencionar-se: Kamma9 ou Lei da Causalidade Moral, a Doutrina do Renascimento, Anatta e Nibbana.


1N. do. T.: Expressão em Francês que significa “a razão de ser”.

2N. do T.: Em Pali, Tanha, significa sede, ânsia, desejo egoísta, desejo centrado na ignorância.

3N. do T.: Expressão em Latim que significa “o Bem Maior”. É usada na filosofia para descrever o bem maior que o ser humano deve buscar.

4Ânsia associada com “Eternalismo” (Sassataditthi).

5Ânsia associada com “Niilismo” (Ucchedaditthi).

6N. do T.: Não confundir com Kamma.

7N. do T.: Hipátia de Alexandria.

8N. do T.: Giordano Bruno.

9N. do T.: Karma, em sânscrito.

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