III. É uma Religião?

Não é uma religião no sentido em que se entende habitualmente esta palavra, dado que não é “um sistema de fé e culto que deve lealdade a algum ser sobrenatural”.

O Budismo não exige fé cega de seus adeptos. Aqui, a mera crença é destronada e substituída pela confiança baseada no conhecimento do que, em Pali, se conhece como Saddhā. A confiança depositada por um seguidor no Buddha, é como a de uma pessoa doente em um nobre médico ou de um estudante no seu professor. Um Budista busca refúgio no Buddha porque foi ele que descobriu o Caminho da Libertação.

Um Budista não busca refúgio no Buddha com a esperança de ser salvo pela purificação pessoal do Buddha. O Buddha não dá tal garantia. Não está dentro da capacidade do Buddha limpar as impurezas dos outros. Ninguém pode corromper ou purificar outro.

O Buddha, como Mestre ou Professor, nos instrui, mas somos nós mesmos diretamente responsáveis pela nossa purificação.

Ainda que um Budista busque refúgio no Buddha, não há nenhuma abnegação. Tampouco um Budista sacrifica sua liberdade de pensamento convertendo-se em seguidor de Buddha. Pode exercer sua própria livre vontade e desenvolver seu conhecimento inclusive até ao ponto de tornar-se ele mesmo num Buddha.

O ponto de partida do Budismo é raciocinar ou compreender, ou, em outras palavras, Sammā-Diṭṭhi.

Aos que buscam a verdade, o Buddha lhes disse:

Não aceiteis nada que ouviste – (i.e., porque temos ouvido deste sempre).

Não aceiteis nada por mera tradição – (i.e., porque foi transmitido assim através de muitas gerações).

Não aceiteis nada devido à mera existência de rumores – (i.e., crer no que dizem os outros sem haver comprovações).

Não aceiteis nada simplesmente porque coincide com vossa religião.

Não aceiteis nada por mera suposição.

Não aceiteis nada por mera inferência, por mera dedução.

Não aceiteis nada considerando simplesmente as razões.

Não aceiteis nada simplesmente porque está de acordo com vossas noções preconcebidas.

Não aceiteis nada simplesmente porque os pareça aceitável – (i.e., porque um orador parece bom deveria aceitar-se a sua palavra).”

Mas quanto tiverem compreendido por vocês mesmos de que – isto é imoral, isto é indigno, isto censura a prudência ou o juízo, isto, quando se faz e se assume, leva à ruína e ao sofrimento – então, rejeite-o realmente.”

Quando sabeis por vocês mesmos que – estas coisas são morais, são irrepreensíveis, são elogiadas por sua prudência e por seu juízo, estas coisas, quando se fazem e se assumem, conduzem ao bem-estar e à felicidade – então, que vivam agindo em conformidade.”

Estas palavras inspiradoras do Buddha ainda retêm sua força e frescura original.

Embora não haja fé cega, pode-se discutir se há ou não culto a imagens, etc., no Budismo.

Os Budistas não adoram imagens esperando favores espirituais ou terrenos, mas prestam reverência ao que elas representam.

Um Budista consciente, oferecendo incenso e flores a uma imagem, se faz sentir expressamente a si mesmo na presença de Buddha em vida, e assim, ganha inspiração da sua personalidade nobre e respira profundamente da sua compaixão ilimitada. Tenta seguir o nobre exemplo de Buddha.

A árvore Bodhi é também um símbolo da iluminação. Estes objetos externos de reverência não são absolutamente necessários, só que são úteis na medida em que tentam facilitar a nossa concentração. Uma pessoa intelectual poderia prescindir deles já que facilmente poderia fixar sua atenção e visualizar o Buddha.

Para nosso próprio bem, e por gratidão, fazemos tal mostra externa de respeito, mas o que o Buddha espera do seu discípulo não é tanto reverência mas a observância real dos seus ensinamentos.

Buddha disse:

Me honra mais quem melhor pratica os meus ensinamentos. Aquele que vê o Dhamma me vê a mim.”

No que diz respeito às imagens, contudo, o conde Hermann Keyserling diz:

Não vejo nada maior neste mundo que a estátua de Buddha. É uma personificação absolutamente perfeita da espiritualidade no domínio visível.”

Mais ainda, deve-se mencionar que não há orações de petição e intercessão no Budismo. Ou seja, por muito que possamos orar a Buddha, não seremos salvos. O Buddha não concede favores aqueles que rezam. Em lugar de orações de petição existe a meditação, que leva ao autocontrolo, purificação e iluminação. A Meditação não é nem um devaneio silencioso nem manter a mente em branco. Trata-se de um esforço ativo. Serve como um tónico tanto para o coração como para a mente. Buddha não só fala da inutilidade de oferecer orações mas também menospreza a mentalidade de escravo. Um Budista não deve rezar para ser salvo, mas deve confiar em si mesmo e ganhar sua liberdade.

As orações adquirem um caráter de comunicações privadas, negociações egoísta com Deus. Perseguem objetos de ambição terrena e inflamam o sentido do Eu. A meditação, pelo contrario, é uma mudança pessoal.”

Sri Radhakrishnan

No Budismo não existe, como na maioria das outras religiões, um Deus Todo-Poderoso para ser obedecido e temido. Buddha não crê num potentado cósmico, omnisciente e omnipresente. No Budismo não há revelações divinas nem mensageiros divinos. Um Budista, portanto, não é servil a nenhum poder superior sobrenatural que controla o seu destino e que arbitrariamente premia e castiga. Na medida em que os Budistas não crêem nas revelações de um ser divino, o Budismo não reclama do monopólio da verdade e não condena nenhuma outra religião. Mas o Budismo reconhece as infinitas possibilidades latentes do homem e ensina que o homem pode obter a libertação do sofrimento por seus próprios esforços e independentemente de ajudas divinas ou sacerdotes mediadores.

O Budismo por conseguinte, não pode denominar-se estritamente religião porque não é um sistema de fé e culto nem está justificado “o ato externo ou forma pela qual os homens mostram seu reconhecimento da existência de um Deus ou deuses que têm poder sobre os seus destinos e a que se deve obedecer, servir e honrar”.

Se por religião se entende “um ensinamento que comporta uma visão da vida que é mais que superficial, um ensinamento que olha para a vida e não meramente para ele, um ensinamento que dota os homens com um guia de conduta de acordo com essa consideração interna, um ensinamento que permite que aqueles que lhe prestam atenção encararem a vida com fortitude e a morte com serenidade”,1 ou um sistema para se livrar dos males da vida, então, é certamente a religião das religiões.


1Bhikkhu Silacara.

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4 thoughts on “III. É uma Religião?

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