Budismo em Poucas Palavras

Budismo em Poucas Palavras

por
Narada Mahathera

Tradução: Ricardo J. C. Sousa
Fotografias: © Ricardo J. C. Sousa


Título original: Buddhism in a Nutshell
Traduzido a partir de: http://www.accesstoinsight.org/lib/authors/narada/nutshell.html
Copyright ©1982 Buddhist Publication Society. Pode-se copiar, reformatar, reimprimir, republicar, e redistribuir este trabalho por qualquer meio, desde que: (1) sejam disponíveis gratuitamente e, no caso de reimpressão, apenas em quantidade não superior a 50 cópias; (2) que indique claramente que todos os derivados deste trabalho (incluindo traduções) são derivados deste documento original; e (3) se incluir o texto completo desta licença em quaisquer cópias ou derivados deste trabalho. De outro modo, todos os direitos são reservados. Para obter informações adicionais sobre esta licença, consulte a secção FAQ em www.accesstoinsight.org.

Última revisão: Janeiro de 2016

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Índice

Prefácio

I. O Buddha

II. O Dhamma: É uma Filosofia?

III. É uma Religião?

IV. É o Budismo um Sistema Ético?

V. Algumas Características Relevantes do Budismo

VI. Kamma: A Lei da Causalidade Moral

VII. Renascimento

VIII. Paticca Samuppāda

IX. Anattā: Insubstancialidade

X. Nibbana

XI. O Caminho para o Nibbana

Apêndice:

Concentração na Respiração (Ānāpāna Sati)

Meditação da Bondade Amorosa (Mettā)

Perfeições (Pārami)

Prefácio

Budismo em Poucas Palavras apareceu pela primeira vez em 1933. Desde então, vários filantropos publicaram distintas edições para distribuição gratuita.

Para uma exposição mais completa dos temas discutidos aqui, aos leitores se lhes sugere amavelmente que leiam a edição revisada e mais ampla de The Buddha and His Teachings, publicado em 1964.

A permissão para reimprimir ou traduzir este livro pode obter-se de forma gratuita.

NARADA
Vajirarama
Colombo, Sri Lanka.
Junho de 1975

Namo Tassa Bhagavato Arahato Samma-Sambuddhassa

I. O Buddha

Na lua cheia de Maio, no ano de 623 a. C., nasceu na região do Nepal um príncipe indiano Sakya chamado Siddhartha Gotama, que estava destinado a ser o maior mestre religioso do mundo. Criado em luxo e tendo recebido uma educação adequada a um príncipe, casou e teve um filho.

Sua natureza contemplativa e compaixão sem limites não lhe permitiram desfrutar dos prazeres materiais efémeros da casa real. Apesar de não ter que suportar penas e aflições, se compadeceu profundamente pela dor da humanidade. No meio do conforto e da prosperidade, se deu conta da universalidade da dor. O palácio, com todos os entretenimentos mundanos, deixou de ser um lugar agradável para o príncipe compassivo. Chegou o momento oportuno para ele partir. Compreendendo a vaidade dos prazeres sensuais, com os seus 29 anos, renunciou a todos os prazeres mundanos e, vestindo-se com um simples manto amarelo de asceta, só, sem dinheiro, foi em busca da Verdade e da Paz.

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II. O Dhamma: É uma Filosofia?

O sistema não-agressivo, moral e filosófico exposto pelo Buddha, que não exige fé cega de seus adeptos, que expõe crenças não dogmáticas, que incentiva a que não se levem a cabo ritos supersticiosos ou cerimónias, mas que advoga um meio áureo que guie o discípulo através da vida pura e pensamentos puros para obter a sabedoria suprema e a libertação do mal, é chamado de Dhamma e é popularmente conhecido como Budismo.1

O todo compassivo Buddha morreu, mas o sublime Dhamma que ele sem reservas legou à humanidade, todavia existe em sua prístina pureza.

Ainda que o Mestre não tenha deixado palavras escritas de seus Ensinamentos, seus ilustres discípulos as preservaram memorizando-as e transmitindo-as de forma oral de geração em geração.

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III. É uma Religião?

Não é uma religião no sentido em que se entende habitualmente esta palavra, dado que não é “um sistema de fé e culto que deve lealdade a algum ser sobrenatural”.

O Budismo não exige fé cega de seus adeptos. Aqui, a mera crença é destronada e substituída pela confiança baseada no conhecimento do que, em Pali, se conhece como Saddhā. A confiança depositada por um seguidor no Buddha, é como a de uma pessoa doente em um nobre médico ou de um estudante no seu professor. Um Budista busca refúgio no Buddha porque foi ele que descobriu o Caminho da Libertação.

Um Budista não busca refúgio no Buddha com a esperança de ser salvo pela purificação pessoal do Buddha. O Buddha não dá tal garantia. Não está dentro da capacidade do Buddha limpar as impurezas dos outros. Ninguém pode corromper ou purificar outro. Continuar a ler

IV. É o Budismo um Sistema Ético?

Não há dúvida que contém um excelente código de ética que é incomparável em sua perfeição e atitude altruísta. Fornece um modo de vida para os monges e um para os leigos. Mas o Budismo é muito mais que um ensinamento moral comum. A moralidade é apenas a fase preliminar no Caminho da Pureza, e é um meio para um fim, não um fim em si mesmo. Contudo, embora essencial, é por si só insuficiente para obter a própria emancipação. Deve ser acompanhada de sabedoria ou conhecimento (Panna). A base do Budismo é a moralidade, e sabedoria é o seu ápice.

Ao observar os princípios de moralidade, um Budista deveria não só contemplar seu próprio Eu, mas ter consideração pelos outros também – animais incluído. Moralidade no Budismo não se baseia em qualquer revelação questionável nem é a engenhosa invenção de uma mente excecional, mas é um código racional e prático baseado em factos verificáveis e experiência individual.

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V. Algumas Características Relevantes do Budismo

Os fundamentos do Budismo são as Quatro Nobres Verdades, a saber: O sofrimento (a raison d’être1 do Budismo); sua causa (i.e., o Desejo);2 o seu fim (i.e., Nibbana, o Summum Bonum3 do Budismo); e o Caminho do Meio [Nobre Caminho Óctuplo].

Qual é a Nobre Verdade do Sofrimento?

Nascer é sofrimento, a velhice é sofrimento, a doença é sofrimento, a morte é sofrimento, estar unido ao desagradável é sofrimento, estar separado do agradável é sofrimento, não receber o que se deseja é sofrimento, em resumo, os Cinco Agregados influenciados pelo apego são sofrimento.”

Qual é a Nobre Verdade da Causa do Sofrimento? Continuar a ler

VI. Kamma: A Lei da Causalidade Moral

Estamos diante um mundo completamente desequilibrado. Percebemos as desigualdades, os múltiplos destinos dos homens e os inúmeros tipos de seres que existem no universo. Vemos que uns nascem em abundância, dotados de boas qualidades mentais, morais e físicas, e outros em extrema pobreza e miséria. Aqui está um homem virtuoso e santo, mas, ao contrário de suas expectativas, o infortúnio está sempre pronto para recebê-lo. O mundo perverso contraria as suas ambições e desejos. Ele é pobre e miserável, apesar de seus tratos honestos e piedosos. Há um outro vicioso e tolo, mas considerado um amado da sorte. Ele é recompensado com todas as formas de favores, apesar de suas deficiências e mau estilo de vida. Continuar a ler

VII. Renascimento

Na medida em que existe esta força Kámmica, o renascimento ocorre, pois os seres são simplesmente a manifestação visível desta força Kámmica invisível. A morte não é nada mais que o fim temporário deste fenómeno temporário. Não é a aniquilação completa do chamado ser. A vida orgânica cessou, mas a força Kámmica que agiu até agora não foi destruída. Uma vez que a força Kámmica permanece completamente inalterada pela desintegração do corpo efémero, a morte do presente momento mental só condiciona uma nova consciência em outro nascimento.

É o Kamma, enraizado na ignorância e desejo, o que condiciona o renascimento. O Kamma passado condiciona o nascimento presente; e o Kamma presente, em combinação com o Kamma do passado, condiciona o futuro. O presente é filho do passado, e por sua vez, se torna o pai no futuro.

Se assumimos uma vida passada, presente e futura, então, somos confrontados com o alegado misterioso problema – “Qual é a origem última da vida?” Continuar a ler